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Da era da informação à era da inteligência: como a IA está transformando o comportamento do consumidor

há 29 minutos
5 min de leitura
Mulher usa o celular ao lado de um robô assistente, cercada por janelas de busca, carrinho de compras e avaliações, com a foto de Natalia Barbosa, autora do artigo.

Por muito tempo, quem tinha acesso à informação saía na frente. Saber onde estava o melhor preço, qual loja entregava mais rápido ou qual produto tinha as melhores avaliações exigia tempo, paciência e dezenas de abas abertas.


O Google organizou bilhões de páginas web justamente para resolver esse problema: ajudar as pessoas a encontrar informação.


Hoje, informação é abundante. O que escasseia é a capacidade de interpretá-la, contextualizá-la e transformá-la em decisão.


É essa a virada da era da informação para a era da inteligência, e ela já está mudando a forma como o brasileiro pesquisa, compara e compra, principalmente em momentos de alta intenção, como a Black Friday.


A IA já faz parte da jornada de compra


Não se trata de uma tendência distante. Em pesquisa do Google com a Ipsos, que avaliou 17 mil jornadas de compra respondidas por 2.750 brasileiros, 57% já utilizaram IA em alguma jornada de compra.


Desses, 44% usaram a tecnologia em parte das compras e 13% em todas elas.


O movimento também aparece na escala dos produtos. Segundo os resultados do segundo trimestre de 2026 da Alphabet, os AI Overviews alcançam mais de 2,5 bilhões de usuários ativos mensais, enquanto o Modo IA e o Gemini passam, cada um, de 1 bilhão.


O uso, porém, não é uniforme. O mesmo estudo mostra que ele varia conforme a categoria e a complexidade da decisão.


Em compras simples e recorrentes, como bebidas e alimentos básicos, a IA aparece pouco. Já em decisões de maior risco financeiro, maior envolvimento e mais carga de informação, como automóveis, notebooks, investimentos e eletrodomésticos, o uso é bem mais alto.


Faz sentido: quanto mais difícil é decidir, mais o consumidor quer ajuda para decidir.


Uma jornada menos linear: mais curta e mais profunda


O funil clássico, em que a pessoa descobre, pesquisa, compara e compra em etapas bem comportadas, nunca descreveu tão mal a realidade.

Com a IA, a jornada passa a ter duas características que parecem contraditórias.


Primeiro, ela fica mais curta no tempo: 77% dos usuários dizem ter tomado decisões de compra mais rápidas com o AI Mode e/ou com o AI Overview.


Ao mesmo tempo, ela fica mais profunda em informação, porque a IA sintetiza o conteúdo e o consumidor, em vez de parar, expande a conversa com novas perguntas.


Os dados de comportamento de busca ajudam a visualizar isso. No Modo IA, as buscas são cerca de 3 vezes mais longas do que as tradicionais, e as perguntas de follow-up crescem 40% ao mês.


Ninguém digita "escova secadora" e para por aí. A pergunta passa a ser algo como: quais são as melhores escovas modeladoras para cabelos grossos, que não só esquentem, mas soltem ar como um secador tradicional?


É um paradoxo só na aparência: a IA sintetiza, o consumidor expande.


E isso acontece sem prejuízo da qualidade da decisão. Segundo a Ipsos, 75% dos usuários de AI Overviews e do Modo IA no Brasil dizem tomar decisões com mais confiança graças a esses recursos.


Do "qual produto?" ao "qual problema eu preciso resolver?"


A principal mudança talvez seja a do ponto de partida.


Antes, a jornada começava em uma marca ou em um tipo de produto: "escova secadora". Agora, ela começa em um contexto ou problema: "tenho cabelo grosso, quero secar e modelar ao mesmo tempo, o que me serve?".


A IA entende contexto, intenção e necessidade de um jeito muito mais próximo de um assistente pessoal do que de um índice de páginas.


O consumidor descreve a situação em linguagem natural, e a resposta já vem com critérios (potência, tipo de cerda, tecnologia), recomendações e referências.


O que isso representa para as marcas? Não basta mais estar presente quando alguém procura pelo nome do produto.


Se a jornada começa na necessidade, a marca precisa estar presente no contexto em que a necessidade surge. Quem só aparece na etapa final disputa uma decisão que, em boa parte, já foi encaminhada.


Há ainda um dado que reforça o tamanho desse território: no Brasil, 84% das jornadas de descoberta de novas marcas, produtos, serviços, varejistas ou fornecedores passam pelo Google e pelo YouTube.


É ali que a marca é, ou deixa de ser, considerada.


A IA como assistente de compras


Nesse novo cenário, a IA deixa de ser apenas uma ferramenta de pesquisa e passa a se comportar como uma consultora de compras.


O consumidor pode pedir recomendações, entender a diferença entre dois modelos, buscar alternativas mais em conta e até perguntar se determinada opção faz sentido para o seu caso específico.


Isso muda a relação entre consumidor, marca e publicidade. A IA passa a participar ativamente da decisão, interpretando e filtrando o que chega até a pessoa.


A marca já não conversa só com o consumidor: ela também precisa ser compreendida, e bem representada, no ambiente em que essa mediação acontece.


Informação de produto clara, consistente e útil, que responda às perguntas reais das pessoas, vira ativo estratégico.



A IA como caçadora de bons negócios


Na Black Friday, esse comportamento fica ainda mais evidente. Segundo a pesquisa Google Offerwise Black Friday, de julho de 2026, a intenção de usar IA para se informar sobre preços e ofertas triplicou: de 5% em 2024 para 15% em 2026.


O mais interessante é como as pessoas pretendem usá-la:


  • Validar: 22% avaliam se a promoção realmente vale a pena.

  • Buscar benefícios: 20% procuram cupons, cashback e benefícios promocionais.

  • Comparar: 19% pesquisam e comparam preços e o custo do frete.

  • Descobrir: 17% buscam marcas e produtos a partir das próprias necessidades.

  • Simular: 17% simulam preço, frete, cupons, fidelidade e condições de pagamento para identificar a opção mais vantajosa.


Ou seja, o consumidor não quer apenas o maior desconto. Ele quer uma boa oportunidade para aquilo de que realmente precisa.


A IA o ajuda a comparar preço, benefícios, características e alternativas, e o resultado é um comprador mais racional, mais informado e mais seletivo.


Em um cenário assim, o desconto sozinho perde força como argumento.

Condições claras, transparência e adequação à necessidade pesam cada vez mais.


Não por acaso, velocidade e confiança são as duas palavras que melhor resumem o que o consumidor espera da Black Friday.



Conclusão


Quando a informação era escassa, ter acesso a ela era um diferencial.


Agora que ela sobra, o diferencial está em saber interpretá-la, tanto para o consumidor, que conta com a IA para decidir melhor, quanto para as marcas, que precisam entender profundamente as necessidades por trás de cada pergunta.


A Black Friday deste ano é um bom laboratório dessa mudança. Quem chegar a ela pensando só em desconto vai disputar a atenção de um consumidor cada vez mais seletivo.


Quem chegar pensando em contexto, relevância e confiança vai estar presente onde a decisão realmente acontece.




Sua marca está presente onde a decisão de compra realmente acontece?




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